Há vários anos atrás, estas palavras eram cantadas com a força de uma grande esperança por aqueles que viviam nas CEBs, as Comunidades Eclesiais de Base. De faro, porém, a luta pelos direitos não se limitou ao tempo em que vivemos debaixo de uma ditadura. Ela continua ainda hoje, pois muitos dos nossos concidadãos ainda não gozam plenamente de todos os seus direitos. E nosso país não é o único em que isto acontece…

Mas, que direitos são esses, que mobilizaram e continuam mobilizando tanta gente por este mundo afora? De fato, a luta pelos direitos é universal. O direito à vida, que implica o direito a uma alimentação adequada e aos cuidados necessários para a manutenção da saúde; o direito a uma moradia digna; o direito ao trabalho, que implica o direito a um salário que permita o sustento da própria pessoa e de sua família; o direito à educação; o direito à liberdade pessoal; e muitos outros… São tantos os direitos que cada pessoa humana tem, mas que nem sempre são respeitados…

Em meados do século passado, para ser exata, em 1947, foi promulgada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É interessante – e, ao mesmo tempo, doloroso – perceber quanto tempo se passou na História da Humanidade até que estes direitos fossem reconhecidos e promulgados como direitos de todo ser humano, não importa sua origem étnica, seu gênero, sua idade, sua religião. Toda pessoa humana é portadora de uma dignidade inalienável e que deve ser respeitada.

Nosso país começou sua História numa época em que estes direitos não eram respeitados. Vigorava, sim, naquele tempo, a lei do mais forte. Foi assim que nossos irmãos indígenas se viram espoliados de suas terras e forçados, muitas vezes, a renegar sua própria cultura. Foi assim que nossos irmãos africanos foram trazidos para cá como força de trabalho, escravizados, tratados muitas vezes como “não-gente” …

Em muitos outros países e épocas, esta mesma narrativa pode ser feita com outros atores, mas com o mesmo enredo. Precisamos reconhecer, ainda que com tristeza, que é mais fácil viver segundo a lei do mais forte (quando se é “o mais forte”, evidentemente) do que reconhecer em cada ser humano o rosto de um irmão que deve ser respeitado, pois temos todos os mesmos direitos.

É por esta razão que tanto se fala hoje nos Direitos Humanos. Além do documento das Nações Unidas, a Declaração Universal dos Direitos Humano, a maioria dos países faz, em suas respectivas Constituições, menção aos direitos de que devem gozar seus cidadãos. No entanto, olhemos em torno de nós… Quantas pessoas em nosso país sofrem de um racismo estrutural, impregnado nas mentalidades e nas instituições?… Quantas pessoas sofrem fome ou estão em situação de subalimentação?… Quantas não têm um emprego fixo?… Quantas são analfabetas por falta de uma escola na região em que vivem?… Quantas não recebem um salário justo?… Quantas não têm uma habitação digna?… Quantas crianças trabalham para ajudar no sustento da família?… Quantas vezes vemos nos jornais a notícia de pessoas que foram resgatadas “de situação de escravidão”?… Quantas não conseguem “subir na vida” por não terem tido possibilidade de estudar?… Quantas não…? Quantas não…? Quantas não…? Quantas…. E, no entanto, todas são nossas irmãs e irmãos, com os mesmos direitos que nós… Sim, por essa razão, tanto se fala em Direitos Humanos hoje em dia.

Santa Maria Eugênia, porém, nos surpreende, porque ela vira esta questão pelo avesso… Ela fala de direitos, sim, mas de direitos de Deus… Eis aqui o que ela nos diz: “Em tudo e de todas as maneiras, devemos ser adoradoras e zeladoras dos Direitos de Deus. O primeiro direito de Deus é o de ser escutado quando fala, e o primeiro dever do homem é receber a Palavra de Deus com profundo respeito e grande fé”.

Portanto, segundo nossa Mestra de Vida, Deus tem o direito de ser ouvido. E que nos diz a Palavra de Deus sobre este assunto sobre o qual estamos refletindo? Antes de mais nada, o Evangelho nos diz que Jesus falou muito de fraternidade, levando os que o ouviam a perceber, a sentir, que eram todos irmãos. Ora, entre irmãos não existe o “mais” e o “menos”, o que tem “mais” direitos e o que os tem “menos”, o que deve ser “mais” respeitado”, e o que o pode ser “menos” … Entre irmãos, o que existe é igualdade. Portanto, a mesma dignidade e os mesmos direitos.

Aconteceu em Roma no último final de semana do mês passado a 1ª Jornada Mundial das Crianças. Assim como existem há anos as Jornadas Mundiais dos Jovens – uma das quais for realizada no Rio de Janeiro há alguns anos atrás – o Papa Francisco começou este ano uma nova tradição: convocar também uma Jornada Mundial das Crianças. 50.000 crianças, de 06 a 08 anos de idade, de vários países do mundo, foram a Roma, acompanhadas por suas famílias, e se encontraram com o Papa, que lhes disse: “Não deixem que roubem o seu sonho de paz”.

E qual foi este sonho, mas palavras das próprias crianças? “Queremos só brincar, estudar e viver livres, como tantas outras crianças no mundo”, disse uma menina palestina de 09 anos, em mensagem dirigida ao Papa. Uma outra criança da Indonésia dizia: “Que todas as crianças tenham aquilo de que precisam para viver, para comer, para brincar, para ir à escola. Este é o milagre que eu desejo”. E o Papa Francisco lançou esta mensagem para as crianças, para os jovens, para os adultos – parta todos, enfim – “Há crianças que não têm o necessário. Deveríamos ser todos iguais, mas isto não acontece. Por quê? Isto acontece por causa do egoísmo, por causa da injustiça… Tentemos ser mais justos, e trabalhemos para que não haja tanta injustiça no mundo”.

No fundo, com esta fala, o Papa chama a atenção de todos nós para a profunda desigualdade que existe em nossa sociedade. Deveríamos ser todos iguais, com os mesmos direitos respeitados, mas, infelizmente, isto não acontece. Basta olharmos em torno de nós para constatar que uns têm “mais” direitos do que outros…

Se nos deixarmos guiar pelo que diz Santa Maria Eugênia sobre o direito de Deus de ser ouvido, estaremos observando todos os Direitos Humanos… Sim, porque a Palavra de Deus nos interpela: “O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros, assim como eu amei vocês” (Jo 15,12); “Entre eles, ninguém passava necessidade” (At 4,34); “Vós sois todos irmãos” é a grande verdade que ecoa através de todo o Evangelho. Jesus proclama esta verdade com suas palavras e com suas atitudes, sabendo que, através dos tempos, muitas pessoas teriam dificuldade para entendê-la e colocá-la em prática. 

Pelo contrário, como cristãos que somos, como pessoas que desejam viver a sua fé, abramos ouvidos e coração à Palavra de Deus. Sejamos coerentes ao rezar o Pai Nosso – a oração dos que se sentem irmãos, filhos do mesmo Pai – e vivamos a justiça social, que nos pede respeitar a dignidade inerente de cada pessoa humana.

 
Irmã Regina Maria Cavalcanti

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