As duas mães, vizinhas e amigas há muito tempo, estavam conversando enquanto as crianças brincavam no quintal. “É incrível, dizia uma, parece até que meu filho é surdo; eu falo, falo, e ele continua fazendo o que eu disse a ele que não fizesse”. E a outra, com um meio-sorriso, cortou a lamentação: “Mas, você sabe, a gente só escuta o que a gente quer…”
A vida nos mostra que esta última frase da conversa das mães traz uma verdade que nem sempre é agradável… Pense um pouco: por acaso você faz parte destas pessoas que só escutam aquilo que querem? Ou você está disponível para escutar qualquer palavra que lhe for dirigida?
Nós, seres humanos, somos dotados de linguagem. É verdade que entre os animais há sistemas de comunicação cuja chave não temos. Mas o fato de sermos seres inteligentes, que pensam, desenvolvem raciocínios, torna a comunicação algo muito importante em nossa vida.
É extremamente comovente observar um bebê que começa a aprender a falar… Sua alegria ao conseguir dizer “mã…mãe” ou “pa…pa… pai” e a alegria de quem se sentiu assim reconhecido e nomeado são indescritíveis. Daí para a frente, é uma torrente de novas palavras que vão se suceder: o bebê descobriu a chave da fala, e não vai parar, através da vida, de descobrir novas palavras, novas expressões para se comunicar, para entrar em relação com outras pessoas.
Nós, seres humanos, somos seres sociais. Precisamos ter contato com outros, relacionarmo-nos com outros, interagir com outros, comunicarmo-nos com outros para nos tornarmos nós mesmos, para desenvolver nossa própria identidade. Este é o processo de crescimento pelo qual todos nós, adultos, passamos, mas do qual não nos lembramos. É um mistério que este processo de nos tornarmos conscientes de nosso próprio “eu” esteja tão envolto em brumas. Mas é assim que crescemos…
A palavra é um elemento extremamente importante neste processo. O domínio da fala, a capacidade de comunicação de nossos sentimentos, pensamentos, de toda a nossa interioridade, é que vai criando os vínculos sociais que, por sua vez, nos fazem progredir em “humanidade”. É na medida em que nos comunicamos com outros que vamos criando laços de amizade, de amor, de compreensão mútua. Não fomos feitos para viver isolados. Precisamos dos outros, e os outros precisam de nós.
Deus, que nos criou, nos conhece a fundo. Ele sabe, mais do que ninguém, como a comunicação é importante para que nos descubramos a nós mesmos. Apesar de ter deixado, em toda a sua obra – a Criação – sinais de sua presença e de seu amor, ele quis ir mais além e entrou em comunicação conosco: é o que chamamos de “Revelação”. Deus falou ao ser humano, Esta sua fala, esta sua Palavra, nós a encontramos na Bíblia.
Este mês de setembro, no qual estamos entrando, é o Mês da Bíblia. Nele, nós, os cristãos, somos convidados a nos aprofundarmos no conhecimento da Palavra de Deus, na Bíblia, para que ela possa nos ajudar a ir penetrando na mensagem que Deus nos dirige e que, na medida em que nos deixamos atingir por ela e a ela respondemos, vamos descobrindo nossa identidade mais profunda, que é a de sermos filhos e filhas de Deus.
Santa Maria Eugênia, nossa grande Mestra de Vida, nos diz isto numa linguagem que talvez nos surpreenda, porque ela fala em “direito” e “dever”. Vejamos o que ela nos diz e tentemos entender sua mensagem. Numa fala às Irmãs no dia 03 de março de 1878, ela diz: “O primeiro direito de Deus é ser escutado quando fala, e o primeiro dever do homem é receber a Palavra de Deus com profundo respeito e grande fé”.
É curioso ver que ela fala de “direitos de Deus”, aos quais correspondem “deveres” por parte da humanidade. E o primeiro destes direitos de Deus é o de ser escutado. Estas palavras nos lembram a cena inicial deste texto, na qual a mãe do menino se queixava que ele “se fazia de surdo” quando ela estava querendo ensiná-lo alguma coisa… No fundo, ela estava querendo ensiná-lo a viver, a evitar certas maneiras de ser e de agir e de sempre escolher maneiras de ser e de agir que mostrassem que ele tinha princípios.
Assim faz Deus conosco: ele quer que escolhamos ser pessoas cujo testemunho de vida mostre que temos consciência de sermos seus filhos. O problema é que muitas vezes fazemos como o menino: fingimos que não ouvimos a Palavra que Deus nos dirige… Você que está lendo este texto, pare um pouquinho e pergunte a si mesmo, honestamente: você já se fez de surdo diante da Palavra de Deus que lhe pedia algo difícil?… Saiba que sempre é possível mudar para melhor, e Deus está sempre pronto a nos perdoar e acolher.
“Receber a Palavra de Deus com profundo respeito e grande fé” é o conselho que Santa Maria Eugênia nos dá. Neste mês de setembro, procure ler a Bíblia, sobretudo os evangelhos. Neles você vai encontrar a Palavra que Deus quer dirigir a você, incentivando você a caminhar pelos caminhos que ele lhe indica.
Deus ama cada um de seus filhos e filhas. Deus ama você. Ele lhe dirige a sua Palavra. Responda a ele com a sua vida.



