Você se lembra da grande esperança que muita gente em nosso mundo tinha quando entramos no século XXI?… “O século XX, dizíamos nós, foi um século de muitas guerras. Depois de duas grandes guerras mundiais, a humanidade já sabe o que é o horror das guerras: o século XXI será um século de paz”…
Esta era a nossa grande ilusão… Estamos já na quarta parte do século XXI – no ano 2025 – mas não estamos num século de paz… O que vemos quando abrimos um jornal ou ligamos a televisão para ver as notícias do dia? A guerra entre a Rússia e a Ucrânia continua; a guerra entre Israel e os palestinos continua; a guerra entre Israel e o Irã ameaçou começar e ainda pode ter outros capítulos; as diversas guerras no continente africano continuam; a perseguição contra os cristãos em alguns países muçulmanos continua… Não, definitivamente, nós não estamos num “século de paz”… Nosso planeta continua sendo vítima de uma violência generalizada. São países que se enfrentam militarmente, são grupos dentro de um mesmo país que se matam uns aos outros – provocando milhares de mortos, de feridos, com crianças que se veem órfãs e idosos que estão desprotegidos, de sofrimentos, de dores e de prejuízos sem fim…
Isto em nível de países, mas a violência acontece também em outros níveis. Um exemplo disto, bem gritante, é o do racismo. Há pessoas que agridem a outros porque acham que pertencem a uma “raça superior”, sem perceber que este conceito de “raça superior” esteve na base de uma ideologia que levou o mundo aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Na realidade, não importa a cor de nossa pele, o feitio de nossos olhos nem o jeito de nossos cabelos: somos todos membros de uma mesma raça, a raça humana…
Mas nós, seres humanos, sofremos de uma terrível doença: temos dificuldade em ver beleza e complementariedade na diversidade. Por isso, a diversidade nos dá medo, e a violência que temos inata em nós nos leva a querer eliminá-la. A História nos mostra que aconteceram guerras e perseguições por causa de religião. Exércitos se enfrentaram, prisões e torturas aconteceram, devido a diferenças de religião… Até hoje, em determinados países, ser cristão no meio de uma sociedade e de uma cultura não-cristã pode ser perigoso.
Estas manifestações de violência não são vividas apenas quando grupos diferentes entram em confronto: elas existem também no nível individual. Exemplo disto é o que acontece por vezes entre homem e mulher. Quantos fatos de dominação existem… Quantas mulheres sofrem porque os maridos lhes impõem limites… É verdade que nossa sociedade hoje já não admite que a mulher seja submissa como era em gerações passadas, mas quantos feminicídios são noticiados ainda hoje, resultados de uma violência cega…
Por que acontece tudo isto, seja em nível de países, de grupos sociais ou de pessoas? Qual a razão que leva o ser humano a ser tão agressivo com o seu semelhante?
Se formos bem honestos e verdadeiros, não poderemos responder a estas perguntas sem a dirigirmos a nós mesmos. Sim, porque nós também, cada um de nós, é também por vezes violento e agressivo… Você que está lendo este texto, nunca esteve “em estado de guerra” com alguém? Com um vizinho, talvez, que o irrita?… Com um parente, que o importuna sempre pedindo favores?… Com um colega de trabalho que tem tendência a “se encostar”, empurrando para você alguma coisa que ele mesmo deveria assumir?…
Não é agradável reconhecer isto, mas é verdade que todo ato de violência brota de nosso próprio coração. A verdade é que temos em nós, no mais profundo de nosso ser, as raízes do mal, do pecado. Por vezes, essas raízes brotam em desejos de vingança; de diminuir o outro para que pareçamos ser melhores, mais inteligentes, mas capazes, em tudo merecedores do primeiro lugar; de “pagar com a mesma moeda” uma injustiça que alguém nos fez, por vezes até “cobrando juros”… Grupos sociais querem por vezes diminuir o espaço de outros. Países querem dominar outros, alargando suas fronteiras sobre territórios que não lhe pertencem… E assim vai se criando uma espiral de violência que brota do coração humano e vai crescendo até atingir milhares de pessoas…
Mas o projeto de Deus não é este… Não é isto o que ele quer para esta Terra que ele criou. Não e isto o que ele quer para a humanidade, composta de filhas e filhos seus… Deus quer que vivamos a fraternidade e a paz. A paz, de fato, é um dom de Deus. E ele quer que a guardemos, que a mantenhamos viva como dom precioso que é. Para isto, precisamos trabalhar sobre nosso coração para que dele só brotem palavras e atos que fortaleçam a paz. Vocês já repararam que, nas cenas do evangelho que contam cenas de Jesus Ressuscitado, as primeiras palavras que ele diz são sempre : “A paz esteja com vocês”?
Nossa mestra espiritual, Santa Maria Eugênia, disse o seguinte, em duas ocasiões: “É um grande esforço apagar completamente de si toda lembrança de amargura, de frieza, toda ferida e de restabelecer em si uma bondade, uma abertura, uma benignidade absoluta em relação a todas as pessoas que nos fizeram sofrer de algum modo” (18/05/1879). “A alegria interior está acima das contradições, das provações, dos fatos que podemos criticar ou daqueles dos quais nos queixamos. Ela se fundamente na paz do coração” (05/04/1874).
Procuremos seguir estes conselhos e peçamos a Deus o dom da paz do coração. E espalhemos esta paz em torno de nós. Ela é sinal do Reino de Deus. Ela é um dom que ele nos faz.
Irmã Regina Maria Cavalcanti


