22 de junho 2025

“E vós, quem dizeis que Eu sou?”

O tema central da liturgia deste domingo é o reconhecimento da identidade de Jesus como o Cristo de Deus, ou seja, o Messias, com as implicações concretas que seu seguimento exige. O evangelho de Lucas traz o episódio da confissão de Pedro, que em nome dos discípulos responde à pergunta de Jesus: “E vós, quem dizeis que Eu sou?”

A primeira leitura, Zac 12,10-11;13,1, apresenta-nos um profeta misterioso que, apesar de ter sido martirizado por seus concidadãos, fez com que eles se arrependessem da brutalidade dirigida ao profeta e se convertessem ao chamado de Deus. Os profetas são impulsionados por Deus a fim de cumprirem sua difícil missão, constituindo vozes importantes que revelam os desígnios de Deus, muitas vezes contrários aos desejos da humanidade. Assim sendo, eles são sacrificados, mas seus sofrimentos não são em vão: resultam sempre na transformação dos corações e na possibilidade de daí emergir uma nova mentalidade e uma libertação das opressões. Nota-se nesta passagem do Antigo Testamento a referência a um messias sofredor, preconizando assim, a figura de Jesus Cristo.

Na segunda leitura, Gal 3,26-29, Paulo nos recorda nossa condição de cristão: nossa vida se transforma a partir do batismo. Através dele nos revestimos de Cristo compartilhando da mesma identidade e missão de Jesus. E o que isso significa concretamente? Quer dizer que assumimos a fé em Jesus Cristo, renunciando à vida de pecado e de egoísmo e assumindo a vida de entrega a Deus e aos irmãos. Paulo insiste que ser cristão vai muito além do cumprimento das normas e regras da Lei Mosaica, pensamento predominante entre os cristãos da Galácia; é a busca da salvação através de um novo estilo de vida baseado na disposição em amar incondicionalmente os irmãos, sem distinção. 

Pela fé em Jesus Cristo e na condição de batizados nos tornamos, todos, filhos de Deus, o que nos coloca numa situação de fundamental igualdade perante Deus. Assim sendo, não deve haver diferença entre pessoas de raças e povos distintos uma vez que, identificados com Cristo, somos herdeiros da mesma vida plena anunciada por Jesus Cristo. A reflexão que nos cabe aqui fazer é se estamos realmente respeitando essa irmandade, sem discriminação e preconceitos a grupos e pessoas que pensam e agem de forma diferente de nós. 

No Evangelho de Lucas, 9,18-24, temos o importante diálogo onde Jesus pergunta aos discípulos: “Quem dizeis que Eu sou?” Pedro, representando a comunidade dos discípulos, responde: “És o Messias de Deus”. Jesus continua o diálogo, acrescentando que o Filho do homem tem que sofrer muito, morrer e ressuscitar e, que quem quiser segui-lo, deve renunciar a si mesmo e tomar sua cruz todos os dias Esta cena se dá no final da caminhada de Jesus pela Galileia, rumo à Jerusalém, onde será crucificado. Jesus quer saber como os discípulos que lhe são próximos e o acompanham há tempos, assimilaram sua verdadeira identidade e as consequências do seguimento de sua proposta de vida.
Importante situarmos o contexto desta cena, época de crise profunda para o povo de Deus, que diante do sofrimento apresentava uma enorme expectativa messiânica. Sob forte opressão do Império Romano e com o aparecimento de diversos falsos profetas, ansiavam com a chegada de um messias libertador, isto é, um grande chefe militar, que restabelecesse o império da dinastia de Davi.
A resposta de Pedro “És o Messias de Deus” significa que ele e sua comunidade veem Jesus como o enviado de Deus, porém, sem terem compreendido a verdadeira essência de sua identidade e de sua proposta libertadora. O messianismo de Jesus não era o de um guerreiro glorioso, mas, sim, o de um servo sofredor, isto é, alguém que dedicaria sua vida ao exercício da justiça, da paz e da prática do amor ao próximo. E assim foi a sua passagem pelo reino terrestre, tendo como consequência sua crucificação, morte e ressurreição. Vale lembrar que todo o seu sofrimento não foi uma predestinação, mas a consequência de sua fidelidade aos desígnios do Pai.

A pergunta de Jesus a Pedro deve ressoar em nosso interior, isto é, se afirmamos sermos seguidores de Jesus não basta ficarmos apenas com uma teoria de vida; nossos passos e nossa vida cotidiana devem expressar amor, paz e solidariedade aos nossos semelhantes. Assim sendo, o desejo de transcendência a que aspiramos como cristãos, deve nos impelir a irmos além de nós mesmos, superando nosso egocentrismo que tanto nos aprisiona. Em outras palavras, precisamos ultrapassar nosso ego e seus desejos eminentemente individualistas. Esta é a proposta libertadora de Jesus com a qual nos comprometemos ao decidirmos ser seus seguidores.

Nossa identidade precisa ser construída, dia a dia, na perspectiva da expansão da vida em direção à plenitude. E o que isso quer dizer? Significa promover o bem comum, sendo fraternos e nos doarmos aos nossos semelhantes uma vez que nos reconhecemos em situação de igualdade como filhos do mesmo Pai. O desapego a si próprio promove espaço ao acolhimento do outro, sendo essa a premissa básica dos ensinamentos de Jesus.

Sabemos, por experiência própria, que viver esse desprendimento nos causa dor e sofrimento; mas Jesus nos diz que temos que “tomar a cruz todos os dias”, isto é, temos que estar vigilantes para não nos desviarmos de nossa rota e do compromisso que assumimos de seguir os ensinamentos cristãos. “Assumir nossa cruz” não significa que temos que nos martirizar e viver para sofrer. O sofrimento não tem valor em si mesmo, mas temos que assumi-lo e enfrentá-lo visando a um bem maior que é nossa disposição em amar e servir os irmãos. Importante termos em mente que esta prática é fruto de uma opção livre e individual e não deriva de uma obrigação imposta por quem quer que seja. Daí a necessidade de sermos autênticos e conectados com os desejos mais profundos de nosso coração, que deve estar em comunhão com Jesus.

Segundo o jesuíta Adroaldo Palaoro, “a verdadeira vida é encontrada na entrega e no compromisso com os valores do Reino, como amor, justiça e igualdade, mesmo sabendo que o destino de quem faz esta opção é a cruz. Com efeito, a salvação não é simplesmente a preservação ou repouso eterno da alma, mas sobretudo a vida e a mensagem libertadora de Jesus, o Salvador. Salva-se, portanto, quem assimila essa mensagem e a transforma em vida”.

Sandra Yazaki

 

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