15 DE JUNHO
Neste primeiro domingo depois do Tempo Pascal, celebramos o dia que podemos chamar “a Festa de Deus”… Sim, porque o mistério da Santíssima Trindade é o mistério de Deus. Cremos num Deus que é Único. Nisto, nossa fé se irmana com a dos muçulmanos e com os que seguem o judaísmo – que também creem em um único Deus. Mas aí está a originalidade do cristianismo: cremos num Deu que é Único, mas que se manifesta em três pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Quantas vezes, desde nossa infância, afirmamos nossa fé no Deus que é Trindade ao dizermos “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, traçando sobre nós mesmos o sinal da cruz… Quantas vezes terminamos um mistério do terço ou finalizamos um momento de oração dizendo “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”, fazendo um ato de fé no Deus que é Uno e Trino…
A fé na existência de Deus é algo que acompanha a história da humanidade. Todos os povos, todas as civilizações tiveram sua religião e cultuaram seus deuses. O caminho da descoberta da existência de Deus é algo que a inteligência humana é capaz de percorrer. Esta afirmação é válida tanto para grandes filósofos e cientistas quanto para nossos antepassados longínquos, do tempo ao qual chamamos de “Pré-história”.
No entanto, as grandes religiões que existem em nosso mundo de hoje e que reúnem uma enorme parte da humanidade – o cristianismo, o judaísmo e o islamismo – não seguem este caminho, que vai do ser humano a Deus, para afirmar sua fé. O caminho que seguem é o inverso: vai de Deus ao ser humano, no que chamamos de Revelação. Este Deus, tão maior e mais poderoso do que o ser humano, quer ser conhecido por nós e nos dirige sua Palavra, se revela a nós. Estas três grandes religiões são conhecidas como as religiões “do Livro”, pois creem que a Revelação foi consignada em Livros Sagrados, que contém a Palavra de Deus. O cristianismo e o judaísmo compartilham o que nós, cristãos, chamamos de Antigo Testamento e os que seguem a religião judaica chamam de “as Escrituras”. O islamismo tem também o seu Livro Sagrado, que contém o conteúdo de sua fé. Só nós, cristãos, temos o Novo Testamento, que nos traz a vida e os ensinamentos de Jesus. Por isso, a Bíblia, o livro da Palavra de Deus, é tão importante para nossa vida de fé.
Foi Jesus que nos revelou o mistério da Trindade. Ele, o Filho de Deus feito homem, encarnado em nossa realidade humana, nos falou muitas vezes do Pai. Ele nos revelou o rosto amoroso, misericordioso, do Pai. Ele nos revelou como devem viver os filhos de Deus e nos falou do Reino que ele quer estabelecer entre nós. Foi Jesus também que nos falou do Espírito Santo, que seria enviado para nos dar a força de viver como verdadeiros filhos e filhas de Deus. Ele nos mostrou o verdadeiro Deus, Uno e Trino, que celebramos hoje.
A liturgia de hoje nos convida a sermos reflexos vivos da Trindade. E nós o seremos se vivermos entre nós a união, o amor, o entendimento, a unidade na diversidade. Sim, porque Deus não nos quer “iguais”, cópias idênticas uns dos outros. Ele nos criou diferentes: cada um de nós tem dons, capacidades, aptidões diferentes. Até em nosso corpo somos diferentes: não há duas pessoas no mundo que tenham as mesmas impressões digitais – tanto que elas nos identificam… No entanto, ele quer que seus filhos e filhas vivam unidos… Unidade na diversidade é o modo de ser de Deus: ele é Uno na Trindade. Unidade na diversidade deveria ser também o modo de ser de seus filhos e filhas, que somos nós. Nossas comunidades cristãs deveriam ser imagens da Trindade, pois, como diz o título bem sugestivo de um livro, “A Trindade é a melhor comunidade”.
Mas vejamos os textos da Missa de hoje: A Primeira Leitura é tirada do Livro dos Provérbios (Pr 8,22-31). Num texto de grande beleza poética, a Sabedoria aparece como a personificação da Palavra de Deus. A Palavra é também chamada “o Verbo”. “Verbo” é ainda o nome dado à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho. “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”, rezamos. É o Filho que tomou uma carne humana, que se fez um de nós e habitou entre nós, Jesus. A Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, como diz a leitura, existiu “desde a eternidade”, “desde o princípio”.
O Salmo (Sl 8, 4-9) nos fala da grandeza de Deus e da beleza de sua Criação. Somos convidados a contemplar a beleza que nos cerca. Pense um pouco: você costuma parar e se extasiar diante da maravilha de uma bela paisagem? Você tem o hábito de contemplar um pôr-do-sol de tirar o fôlego, ou um nascer do sol que dá vontade de cantar? Você já se encantou com uma lua cheia? Se você não viveu essas experiências, comece a vivê-las agora. Elas nos levam à oração…
A Segunda Leitura é da Carta aos Romanos (Rm 5, 1-5). Neste curto texto, Paulo nos fala de Deus, o Pai, “com quem estamos em paz”, pois “justificados pela fé”; do “Senhor nosso, Jesus Cristo”, por quem “tivemos acesso a esta graça”; e do “Espírito Santo que nos foi dado”. É pela ação da Trindade em nós que podemos caminhar “na esperança da glória de Deus”.
No Evangelho, (Jo 16, 12-15), Jesus está se despedindo dos seus. Nesta despedida, ele anuncia o envio do Espírito da Verdade e se coloca no mesmo plano que o Pai. Trata-se de um grande anúncio deste mistério que estamos celebrando. Realiza-se assim, o que a Oração desta festa pedia: “Deus, nosso Pai, enviando ao mundo a Palavra da Verdade e o Espírito santificador, revelastes o vosso admirável mistério. Concedei-nos, na profissão da verdadeira fé, reconhecer a glória da Trindade e adorar a Unidade na sua onipotência. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos”.
Irmã Regina Maria Cavalcanti



